Grupo dedicado à protecção e libertação animal.

sexta-feira, março 25, 2005

Vegetarianos em Sociedade

Antes de mais quero esclarecer que este artigo vem mais em jeito de desabafo do que outra coisa e que, como tal, não pretendo converter ninguém ao meu modo de vida.

Desde muito cedo senti a necessidade de renunciar a compactuar com a morte de animais em prol da minha alimentação, infelizmente, muitos foram os anos que passaram até eu tomar a decisão de me tornar vegetariana e hoje consigo admitir que a culpa disso foi unicamente minha, apesar de não terem sido poucos os factores que contribuíram para a minha cobardia.

Penso que o meu primeiro obstáculo foi, claro, a posição da minha família. Quando uma criança de 10 anos diz que quer ser vegetariana é, de certa forma, normal que os pais fiquem bastante apreensivos, ou pior, simplesmente nos ignorem e encarem a nossa vontade como sendo mais um sintoma da pré-puberdade. Está claro que não era nada passageiro e muito menos uma “mania” como insistiram em chamar, era algo que eu realmente queria (na altura não sabia nada do que hoje sei sobre a maneira como os animais são tratados na indústria alimentar). Na altura acabei por me deixar vencer pela vontade da minha família, mas nunca deixei de pensar no assunto…o período que se seguiu foi de pura alienação daquilo que eu sentia.

Anos depois, ao ser confrontada com imagens do que realmente se passa na produção animal acordei do mundo de futilidades em que tinha, confortavelmente, passado a viver. Por essa altura surgiram muitas dúvidas; a principal era “ se eu poupo os animais, não deverei também poupar todos os outros organismos vivos, nomeadamente, as plantas?”. Cheguei a ter uma “discussão” acerca disso com uma colega de faculdade que é vegetariana, e hoje vejo que fui injusta não só com ela como também comigo. Apesar de evitar matar plantas e as respeitar, sei que esses organismos não possuem um sistema nervoso como nós, animais. Até hoje, ninguém conseguiu provar que as plantas sofrem como os animais, na realidade encontram-se em reinos diferentes devido às suas diferenças abismais. Por isso, não vale a pena escondermo-nos atrás do “ahh se não posso poupar animais e plantas não poupo nenhum”; estamos apenas a fechar os olhos ao que é mais do que óbvio. Para pegar em exemplos algo contemporâneos, se o Schindler pensasse assim não teria salvo nenhum judeu, se a ALF[1] se regesse por esse raciocínio, não teria salvo as centenas de animais que salvou… Mais vale salvar um ou uns poucos do que não salvar nenhum porque não se pode salvar todos.Infelizmente, esta é uma das máximas utilizadas pelas pessoas que (não sei bem porquê) são contra o vegetarianismo, mas não vale a pena alongar-me neste assunto.

A maior parte das pessoas, por ignorância, tem a ideia que o vegetarianismo não é saudável porque não há o consumo de proteínas animais ou da vitamina B12. Trata-se, mais uma vez, do peso da cultura; as pessoas crescem a comer carne e a ouvir que a carne é que alimenta, o que, segundo muitos dos estudos feitos acerca da saúde dos vegetarianos, não podia estar mais errado.

Podem dizer algo ainda mais irritante e ofensivo, como, por exemplo, “O homem foi sempre caçador, os animais foram feitos para serem caçados e para nos alimentarem”. Se eu não como os meus cães ou o meu gato, porque haverei de comer uma pobre vaca ou um porco? Afinal, não sofrem tanto como os ditos animais domésticos? Não sofrem como nós? Se eu posso levar a minha vida sem ser responsável pelas mortes bárbaras de centenas de animais, porque haverei de continuar a compactuar com o que acontece em matadouros, aviários e etc?

Parece-me algo idiota que as pessoas tentem demover um vegetariano (que o é por motivos éticos) da sua filosofia de vida quando o que leva alguém a enveredar pelo vegetarianismo é o facto de se importar mais com o que os animais sofrem do que com o possível prazer que poderia sentir ao comer um bife. Trata-se de altruísmo, de prioridades, de ideologias e isso é muito difícil de abalar.

Outro grande problema para quem se quer tornar vegetariano é o preço normal dos produtos essenciais em qualquer dispensa vegetariana (i.e., tofú, seitan, etc…). São realmente caros, e ainda mais se comparados ao preço da carne e do peixe. Penso que os preços só vão baixar quando a procura aumentar e se construir mais concorrência às empresas que, praticamente, detêm o monopólio desta indústria.Provavelmente, aliada ao custo dos produtos vem a ausência de lojas que os vendam em certas localidades (estando na zona da grande Lisboa, é relativamente fácil). Como disse, são obstáculos, e esses ultrapassam-se de uma maneira ou de outra…acreditem que vale a pena ter a consciência tranquila.

Enfim, sendo vegetariana por motivos ideológicos, por vezes tenho de aturar certas coisas mesmo dentro de casa (o meu pai continua a achar que isto é mais um “fundamentalismo”) mas apesar de estar apenas no início sei que nunca vou voltar atrás e pela primeira vez na vida sinto que o que penso está em concordância com o que faço…o que é uma óptima sensação.

[1]Animal Liberation Front (ALF): género de milícia clandestina com células por todo o mundo que perpetua acções, muitas das vezes ilegais, para salvar animais explorados e torturados pelo Ser Humano.

 
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