Grupo dedicado à protecção e libertação animal.

sexta-feira, março 25, 2005

Miura


"Fez um esforço.

Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação.

Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez!

Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão!

Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo.

O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão.

Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver.

Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais...

Palmas e música lá fora.

O Malhado dava gozo às senhorias...Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo.

Dali a nada, ele. Ele Miura, o rei da campina !

A multidão calou-se.

Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas.

A planície!...O descampado infinito, loiro de sol e trigo...

O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo...

A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro.

Novamente o silêncio.
Depois, ao lado, passes incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco...

Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.

A planície...

Um som fino de corneta.

Estremeceu.

Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez?

Não chegara.
Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco.Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.

A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos...

Assobios.

O Bronco não fazia bem o papel...Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro.Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva.

Apertou-se-lhe o coração.

Que seria?Palmas, música, gritos.Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão.

Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim.Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo.

Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva.

Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto.Desgraçadamente, não podia nada.

O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira?

Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez.

Nova picada no lombo.- Miura! Cornudo!

Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.

Pronto! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar.Com a pata nervosa escarvou a areia do chão.

Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro.

Urinou sem querer.

Gritos da multidão.
Que papel ia representar! Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel.

Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira?A figura franzina avançou.Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente.Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre.

E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente, o outro bateu o pé direito no chão e gritou:-Eh! boi Eh! toiro!

A multidão dava palmas.-Eh! boi Eh! toiro! Tinha de ser.

Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, hei-lo.

Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido.Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar.

E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento.Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor.

Mais palmas ao dançarino.

Parou. Assim nada o poderia salvar.

À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras.

Não. Era preciso ver calmamente.

Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo.O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo.Silêncio.Esperou.

O homem ia desafiá-lo certamente outra vez.Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo até não poder sair do domínio dos chifres.

Agora!
De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor.

Palmas, gritos.

Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem!Mas o inimigo não desistia.
Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades.

Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:- Eh! toiro! Eh! boi!Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos!Não trazia.

E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.

Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados.Passada a bruma que se lhe fez nos olhos relanceou a vista pela plateia.

Então?!
Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio.

Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado.Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado.

Apesar disso, avançou.

Avançou e bateu, como sempre, em algodão.Voltou à carga.O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais.

Protestos da assistência.

Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda.Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites.

Miura, joguete nas mãos dum Zé-Ninguém!

Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caíu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação.Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado.

Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo.Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular.

Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou.Deu, como sempre na miragem enganadora.Renovou a investida. Iludido, outra vez.Parou. Mas não acabaria aquele martírio?

Não haveria remédio para semelhante mortificação?Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?

Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!

Calada, a lâmina oferecia-se inteira.Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem.

Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume."

Miguel Torga, «Bichos». Coimbra, Ed. Autor, 1940; 18.ª ed. 1990.

Pesava-me na consciência não pôr este poema aqui...

1 comentários:

Blogger Morgana disse...

Não temos touradas por aqui,e faço presente minha repulsa a tal atividade.
Não vejo sentido,nem objetivo em tal macabro espetáculo,apogeu da crueldade humana com os bovinos.
Posso falar com tranquilidade,pois sou pecuarista.Porém,defensora do bem estar animal.

2:17 da tarde

 

Enviar um comentário

<< Ínicio

 
free web counter